terça-feira, 12 de março de 2013

ARTIGO


Prefeitar, hoje em dia!          
Prefeitos eleitos que assumem os executivos municipais por este Brasil atulhado de desmandos sofrem “como sovaco de aleijado”. O lado perverso da herança dos antecessores leva os novos prefeitos a enfrentar a desorganização das finanças municipais, a arrolar as contas a pagar atrasadas, a enfrentar a árdua tarefa da prestação de contas dos convênios mal gerenciados, a fazer previsões de arrecadação, a conter os gastos absurdos, a enxugar a máquina e a descobrir por fim que não sobra quase grana nenhuma para investimentos...
Gotas de raiva pingam pelas frontes dos novos prefeitos quando descobrem que respondem pelos desmandos dos antecessores. Como! Se não tomarem providências com as falcatruas, as incompetências ou as malandragens, responsabilidades desabam sobre sua cabeça. Esporte permanente será arregalar os olhos quando dão o ar da graça os auditores do Tribunal de Contas, prescutar o Ministério Público e estudar a Lei de Responsabilidade Fiscal.
A herança menos perversa, mas muito mais exaustiva e mais trabalhosa, será tentar sanear os descalabros dos serviços públicos. Tentar arrostar os hábitos arraigados da burocracia, reclassificar o pessoal, treinar, informatizar e modernizar ... Encrenca prá ninguém botar defeito...
Neste cenário cinzento começa a árdua tarefa de “prefeitar”. A administração moderna exige estratégia de ação de longo prazo. Quase sempre vemos um mergulho na resolução de pequenos problemas que consomem toda a energia e imaginação do eleito. Quem não for capaz de olhar por sobre este horizonte de dificuldades, quem não compreender o mundo novo em que vivemos e deixar de encontrar caminhos com propostas e ações inovadoras para a construção do futuro, vê passar o bonde da história e nem conseguirá sequer pular no seu estribo...
Os prefeitos descobrem rápido que têm que correr atrás de recursos do governo do estado e do governo federal. É uma maratona! Pedidos aqui, pedidos ali para serem atendidos, quando? As finanças municipais formam um cobertor curtíssimo que ora deixa as canelas de fora, quando não cobrem nem o umbigo... Resultado de vícios graves de nossas instituições: hipertrofia do poder central. Os recursos arrecadados da sociedade vão parar nas mãos do governo federal. Prefeitos viram pedintes para sua comunidade. A luta a ser travada fica bem além dos burgos, projeta-se no horizonte dos grandes problemas nacionais. O Governo Federal extorque hoje a sociedade, em quase quarenta por cento da riqueza produzida. São Paulo por ser mais rico da federação consegue sobreviver sem capengar com o pires na mão. Os prefeitos paulistas respiram com mais folga por receberem ajuda do governo estadual do PSDB com uma larga tradição de correção e competência na administração pública.
No plano simbólico da representação, se o Prefeito dormitar sobre qualquer resquício de deslumbramento, está frito e mal pago. Empinou o queixo e dilatou as ventas começa a se estrepar. As línguas pretas pululam em todas as esquinas e em todos os botecos. Em outro artigo, vamos analisar a outra grande encrenca institucional as relações entre executivo e legislativo.
Quando o prefeito leva a sério o compromisso político com a população que o elegeu, tem que enfrentar a exigência inexorável de cuidar sem descanso da sua imagem e da imagem da sua administração. São desafios mais sofisticados e mais radicais. Será permanente a preocupação de prestar contas aos eleitores. Se não for bem feita, pululam adversários e renascem das cinzas os opositores de butuca. Exigência da vida democrática que resulta da revolução atual dos meios de comunicação. Sempre alerta! Pois hoje em dia todo mundo sabe de todo mundo, muito rápido!
O Mito de Sísifo ilustra o “prefeitar, nos dias de hoje!”. Sísifo, o grego, condenado por Hermes, o deus da comunicação, a rolar imensa pedra até o cimo da montanha e soltá-la e rolá-la de novo por toda eternidade. Absurdo da vida que exige revolta permanente como exigia o admirável Albert Camus.                                   Ulysses Telles Guariba Netto. Professor aposentado da USP

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