Vivo pelo fim da linha, onde é outro
começo…
FERNANDO OLMO
"Simplicidade,
simplicidade, simplicidade! Tenha dois ou três afazeres e não cem ou mil; em
vez de um milhão, conte meia dúzia... No meio desse mar agitado da vida
civilizada há tantas nuvens, tempestades, areias movediças e mil e um itens a
considerar, que o ser humano tem que se orientar - se ele não afundar e
definitivamente acabar não fazendo sua parte - por uma técnica simples de
previsão, além de ser um grande calculista para ter sucesso. Simplifique,
simplifique." HENRY DAVID THOREAU
Antes de ser eu mesmo,
viajei grudado no couro e na alma dos meus antepassados pelas distâncias da
estrada de ferro. Na chegada estive numa pequenina propriedade do campo num
lugar escolhido pelos espanhóis daqui... Havia uma casa de duas águas, de
construção simples e de madeira desgastada: rústica, confortável e marcante. De
prêmio pela vitória na peneira da existência, para dar-me o sustento, ganhei do
meu sagrado avô uma vaca leiteira. Depois, presentearam-me banana para com o
leite da mimosa misturar. Mais adiante, serviram-me caldim de feijão com
farinha de mandioca para eu degustar. Abacate, goiaba, manga e mamão, sem
trégua...
Quando me percebi com uma
costela de porco na mão. A fartura, a simplicidade das pessoas do campo, a vida
junto à natureza, são dádivas inesquecíveis.
Nasci noutro começo, cresci
pelo meio de alguns tropeços e vivo pelo fim da linha, onde é outro começo – o
recomeço de mim através da presença do meu guri. Renovo-me nele e no que ainda
me resta, aprendendo e ensinando os melhores valores que aprendi nessa terra.
Desfaço-me todos os dias
para retomar o que o tempo levou... Fortaleço-me nas recordações da vida
d’antes. Nos valores que realmente tem que ser reconhecidos e servir de referência
para o meu filho: a fé, a família, o trabalho, a honra, o caráter e a tradição.
“Quero ir na minha terra, Quero matar a saudade, Quero ver
o que eu não vejo, Aqui dentro da cidade, Quero demorar bastante, Ficar lá o
mês inteiro, Quero fazer toda a lida, Que eu fazia de primeiro, Quero domar
potro xucro, Que há muito tempo eu não domo, Tomar um mate a meu gosto, Que há
muito tempo eu não tomo...
Comer as frutas silvestres, Da mata da minha estância,
Plantada por mão do mestre, Que comi na minha infância, Eu quero fazer de tudo,
Se der certo o que eu desejo, Eu quero encerrar as vacas, Tirar leite, fazer
queijos, Fazer um laço de doze, Se esparramar no espaço, E serrar nas guampas
de um bicho, Pra mostrar que braço é braço”.
Quero campeirar bastante, No lombo de bons cavalos, E
carpir bastante de enxada, Para as mãos criarem calo, Arrastar pipa de água, Na
cincha do meu petiço, Para lembrar minha infância, E o meu primeiro serviço,
Quero arranjar um gaiteiro, E fazer um baile animado, E provar que sou herdeiro,
Da herança do passado...
Lavrar terra sem trator, Pegar no rabo do arado, Pra bem da
musculatura, Cortar lenha de machado, E levar um retratista, Pra bater
fotografia, E provar pros meus amigos, De tudo que eu lá fazia, Vou fazer
acreditar, Quem nunca me acreditou, E outros ficarão sabendo, Quem eu era e
quem eu sou.”
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** FERNANDO OLMO é educador e conselheiro tutelar
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